· Realismo Versus Pragmatismo
Os behavioristas radicais diferem dos primeiros behavioristas, bem como de outros pensadores anteriores do século XX, em sua idéia sobre ciência. O behaviorismo radical se aparenta com a tradição filosófica do pragmatismo, enquanto os outros eram derivados do realismo.
o Realismo
A visão de mundo do realismo é muito aceita no mundo ocidental, muitas vezes até sem questionamentos. Esta visão representa a idéia de que aquilo que vemos realmente está lá, que existe um mundo real fora do sujeito e que dá origem as experiências. Esta visão dá a idéia de que existe um mundo real “lá fora”, e que “aqui dentro” há nossas experiências. Sendo assim, experiências do mundo real, que existem à parte do mundo propriamente dito.
o Universo Objetivo
Entre vários filósofos a que é atribuída a origem do pensamento científico, Tales propôs que o universo é um mecanismo compreensível, e conforme Farrington (1870, p.37) “é um começo admirável, cujo ponto principal é organizar numa descrição coerente diversos fatos observados, sem introduzir o deus Marduk”.
Este mecanismo compreensível, no contexto do realismo, quer dizer um mecanismo real que existe “fora” do sujeito, e a medida que podemos o conhecer melhor, se faz menos enigmático. Por estar fora do sujeito, se torna objetivo – independente de como nossas concepções sobre ele se alterem, o universo permanece exatamente como é.
o Descoberta e Verdade
Se há e podemos conhecer um universo objetivo, o estudamos cientificamente e descobrimos coisas sobre ele. Tais descobertas a respeito de como funciona o universo, são descobertas da verdade ao seu respeito. Perspectiva essa, que nos mostra que de descoberta em descoberta encontramos toda verdade sobre o modo como o universo funciona.
o Dados Sensoriais e Subjetividade
Para o realista, a aproximação da verdade é lenta e incerta, porque estudamos o mundo objetivo a partir do contato do que nossos sentidos produzem sobre ele. E não tendo contato direto com o mundo real, e sim com as nossas percepções dele, não temos razões lógicas para acreditar que o mundo realmente exista.
Alguns filósofos posteriores a Berkeley aceitaram a idéia de que os objetos do mundo são apenas inferências, mas os filósofos da ciência em geral, tenderam a se alinhar com o realismo. Para Bertrand Russell (1872 – 2970), ao invés de idéias e sensações como dizia Berkeley substituiu por dados sensoriais, sugerindo que o cientista os estuda para conhecer o mundo real. Os dados sensoriais estando “dentro” do sujeito, são subjetivos, mas constituem o meio de entender o mundo real, “fora” do sujeito.
o Explicação
Na abordagem realista, a explicação consiste na descoberta de como as coisas realmente são, a partir do conhecimento de algo, outras coisas podem ser conhecidas.
As explicações são diferentes de apenas descrições que só contam as aparências das coisas na superfície, e quando se descobre a verdade escondida no modo de funcionamento das coisas, então os eventos que percebemos são explicados.
· Pragmatismo
O realismo pode ser contrastado com o pragmatismo (da mesma raiz de prático), que foi desenvolvido durante a segunda metade do século XIX e início do século XX, por filósofos americanos. A noção fundamental do pragmatismo, é que a força da investigação científica está não tanto na descoberta da verdade sobre a maneira que o universo objeto funciona, mas no que ela nos permite fazer. A grande realização da ciência é que ela nos permite dar significado a nossa experiência, a torna compreensível e até nos permite prever e controlar o que acontecerá se tivermos meios para isso.
Para James (1907), se a resposta a uma pergunta não promove uma mudança no modo de proceder da ciência, isso significa que a própria pergunta é equivocada e não merece atenção. James e Peirce consideravam a questão sobre a existência fora do sujeito de um mundo real, imutável e objetivo era uma dessas questões em que o debate é inútil.
Com essa postura, o pragmatismo traz implícita uma atitude especial com respeito á verdade das respostas. Como teoria da verdade, equipara aproximadamente verdade com poder explicativo.
James assinalou que, na prática, todas as teorias científicas são aproximações. Tomas Kuhn (1970), em contrapartida, sustenta que a ciência não pode ser caracterizada como um progresso infinito em relação a uma verdade última, que é em geral um progresso ilusório, enquanto alguns enigmas são resolvidos outros surgem. Quando muitos desses enigmas permanecem sem solução, outra visão pode ganhar aceitação, mas não explica tudo o que o antigo paradigma explicava e apresenta seus próprios enigmas.
o Ciência e Experiência
De modo indireto, o pragmatismo influenciou o behaviorismo moderno. Seguindo James, Mach argumentava que a ciência tem a ver com a experiência, e especialmente com o esforço para conferir sentido à experiência. Considerava que a origem da ciência se deu pela necessidade humana de se comunicar de forma eficiente e economicamente umas com as outras. O que é essencial para cultura pois permite uma compreensão do mundo que pode ser passada por gerações. E o principio de economia, então, requeria a invenção de conceitos para organizar as nossas experiências em tipos, categorias, permitindo-nos usar um termo apenas no lugar de muitas palavras.
o Economia Conceitual
A ciência é como outras atividades especializadas, e os conceitos científicos nos permitem passar adiante um entendimento de experiências com outros aspectos do mundo natural. A ciência cria conceitos que nos permitem dizer uns aos outros o que se relaciona com o que no mundo e o que esperar se determinado evento acontecer. O conceito propicia economia as discussões.
o Explicação e Descrição
Mach sugere que o objetivo da ciência é a descrição. Para o realismo, não é mera descrição, mas uma explicação baseada na descoberta da realidade que existe além de nossa experiência. Para pragmatistas, não existe esta distinção, porque, em termos práticos, tudo que a ciência tem como suporte são aparências – observações ou experiências, para os pragmatistas explicação e descrição são a mesma coisa.
A explicação científica consiste apenas na descrição de eventos em termos familiares. Ela não tem nada a ver com a revelação de uma realidade escondida alem de nossa experiência.
· Behaviorismo Radical e Pragmatismo
O behaviorismo contemporâo, radical, baseia-se no pragmatismo. Responde que ciências é a busca de descrições econômicas e abrangentes da experiência natural humana. O objetivo de uma ciência do comportamento é descrevê-lo em termos que o tornem familiar e explicado. Seus métodos buscam ampliar nossa experiência natural do comportamento através da observação que precisa.
O behaviorismo antigo, metodológico, baseava-se no realismo. Defenderia que há um comportamento real que acontece no mundo real, e que nossos sentidos, nos fornecem só dados sensoriais sobre aquele comportamento real, que nunca conhecemos diretamente.
Para lidar com as diversas descrições possíveis, é melhor ater-se a primeira, para o realista. O pragmatista, pergunta qual das maneiras de descrever o comportamento é mais útil, ou mais econômica.
Os behavioristas metodológicos distinguiam mundo objetivo de mundo subjetivo. Consideravam que a ciência era constituída de métodos para o estudo do mundo fora do sujeito. Por isso era considerada a “psicologia do outro” se propondo a estudar somente o comportamento público, ignorando a consciência.
O behaviorismo radical não faz distinção entre mundos objetivo e subjetivo. Concentra-se em termos e conceitos. Os termos que usam para falar de comportamento não apenas nos permitem compreendê-lo, mas também o definem. Incluindo todos os eventos sobe os quais podemos falar com nossos termos inventados. Investigam as melhores maneiras de falar sobre o comportamento, as mais úteis.
O destaque do pragmatismo sobre a fala, os termos e as descrições (em oposição aos métodos de observação) leva a um contraste muito visível entre o behaviorismo metodológico e radical. Para o behaviorista radical, os fenômenos conscientes, incluem-se no estudo do comportamento, pois estão entre as coisas das quais podemos falar.
Daiana Cristina Rauber - Teorias Comportamentais e Cognitivistas. II Período de Psicologia.
Resumo de Baum. O Behaviorismo como Filosofia da Ciência. (Cap. 2 - p.35 – 46).
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